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Ainda sou um ser humano?

Autor Psi. Johny Bento
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12 de outubro de 2026
Ainda sou um ser humano?

A humanidade em tempos de exaustão: quando deixamos de enxergar o outro


Em uma sociedade que exige produtividade, desempenho e respostas imediatas, a empatia parece perder espaço. Mas o que acontece conosco quando a pressa de viver nos faz esquecer como conviver?


Vivemos em uma época de conexões constantes e encontros cada vez mais superficiais. Estamos a poucos segundos de conversar com alguém do outro lado do mundo, mas, muitas vezes, somos incapazes de oferecer alguns minutos de atenção genuína a quem está ao nosso lado. A pressa tornou-se parte da rotina, a produtividade passou a definir o valor das pessoas e a indiferença parece, pouco a pouco, ganhar espaço nas relações humanas.


A falta de humanidade não se manifesta apenas em grandes tragédias, atos de violência ou situações explícitas de crueldade. Ela também aparece nos pequenos gestos cotidianos: na impaciência com quem precisa de mais tempo, na humilhação disfarçada de brincadeira, na incapacidade de escutar opiniões diferentes, na naturalização do sofrimento alheio e na tendência de tratar pessoas como obstáculos, números ou instrumentos para alcançar determinados objetivos.


Mas como chegamos até aqui? E, principalmente, como podemos recuperar a capacidade de reconhecer a humanidade que existe em nós e nos outros?


A sociedade do cansaço e o esgotamento da sensibilidade


Em Sociedade do Cansaço, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han apresenta uma reflexão importante sobre a maneira como a sociedade contemporânea organiza a vida. Segundo o autor, vivemos sob a lógica do desempenho, na qual o indivíduo é constantemente estimulado a produzir, superar os próprios limites e transformar a si mesmo em um projeto permanente de aperfeiçoamento.


Já não precisamos apenas cumprir ordens externas. Muitas vezes, tornamo-nos nossos próprios cobradores. Precisamos ser profissionais melhores, ter uma aparência adequada, manter uma vida social ativa, alcançar estabilidade financeira, cultivar relacionamentos satisfatórios e demonstrar felicidade, mesmo quando estamos exaustos.


Nesse cenário, descansar pode provocar culpa, enquanto não produzir parece representar fracasso. O tempo livre transforma-se em oportunidade para realizar mais alguma coisa, e até os momentos de lazer são atravessados pela necessidade de registrar, compartilhar ou justificar experiências.


O problema não está em buscar crescimento pessoal ou realizar projetos, mas em transformar essas atividades em critérios absolutos de valor, como se a dignidade humana dependesse exclusivamente daquilo que somos capazes de entregar.


Quando estamos permanentemente ocupados tentando corresponder às expectativas, corremos o risco de perder a disponibilidade emocional necessária para perceber o outro. A escuta torna-se apressada, a paciência diminui e o sofrimento alheio passa a ser visto como mais uma demanda a administrar.


A exaustão, entretanto, não justifica a crueldade nem determina que alguém se torne indiferente. Ela ajuda a compreender um contexto em que a atenção, o tempo e a energia emocional são constantemente disputados. Em uma sociedade que nos ensina a competir, precisamos fazer um esforço consciente para reaprender a cooperar.


Quando o outro deixa de ser uma pessoa


A desumanização acontece quando deixamos de reconhecer a complexidade de alguém e passamos a reduzi-lo a uma característica, uma função ou um rótulo.


É o trabalhador que se torna apenas um número de matrícula; a pessoa em situação de rua que passa a ser vista como parte da paisagem; o idoso tratado como incapaz de decidir sobre a própria vida; a pessoa em sofrimento psíquico julgada como fraca; as pessoas LGBTQIA+ reduzidas a estereótipos; ou o indivíduo que pensa diferente e, por isso, deixa de merecer respeito.


Nas redes sociais, esse fenômeno ganha novas dimensões. A distância proporcionada pelas telas facilita julgamentos rápidos, comentários agressivos e a exposição do sofrimento alheio como entretenimento. Muitas vezes, reagimos a uma imagem, a uma manchete ou a um recorte da vida de alguém sem conhecer sua história.


O outro deixa de ser alguém com contradições, medos, desejos e vulnerabilidades. Torna-se uma opinião a ser derrotada, um corpo a ser avaliado ou um problema a ser eliminado.


A filósofa Hannah Arendt, ao refletir sobre a responsabilidade individual e a capacidade de julgar as próprias ações, chamou a atenção para os perigos de deixar de examinar criticamente aquilo que fazemos e as consequências de nossas atitudes. Embora suas reflexões tenham surgido em outro contexto histórico, elas continuam relevantes para questionarmos a facilidade com que reproduzimos comportamentos violentos, preconceituosos ou excludentes sem refletir sobre eles.


A ausência de humanidade nem sempre começa com o desejo consciente de machucar. Às vezes, começa quando deixamos de pensar, questionar e considerar o impacto de nossas ações na vida de outras pessoas.


As consequências de uma vida com menos humanidade


Uma sociedade que normaliza a indiferença compromete não apenas a qualidade das relações, mas também as condições necessárias para a construção de uma vida coletiva mais justa.


No campo emocional, a falta de acolhimento pode intensificar sentimentos de solidão, inadequação e desamparo. Quando uma pessoa percebe que suas dificuldades são constantemente minimizadas, pode encontrar mais obstáculos para pedir ajuda e compartilhar o que sente. A convivência marcada por julgamentos também pode favorecer o isolamento e enfraquecer a confiança nas relações.


No campo social, a indiferença contribui para a naturalização das desigualdades. Quando nos acostumamos a observar a pobreza, o racismo, a violência de gênero e outras formas de exclusão sem reconhecer a responsabilidade coletiva envolvida, passamos a aceitar como inevitável aquilo que poderia ser transformado.


Nas relações afetivas, a falta de humanidade pode se manifestar na incapacidade de negociar diferenças, reconhecer erros, respeitar limites e acolher a vulnerabilidade. As relações passam a ser avaliadas apenas pelos benefícios que oferecem, como se o outro precisasse justificar continuamente sua permanência em nossas vidas.


No trabalho, a valorização excessiva dos resultados pode favorecer ambientes em que pessoas são sacrificadas em nome de metas, prazos e números. O trabalhador deixa de ser reconhecido em sua totalidade e passa a ser avaliado apenas pelo desempenho, pela disponibilidade e pela capacidade de suportar pressões.


É importante lembrar que a humanidade não desapareceu. Existem pessoas, coletivos e instituições comprometidos com o cuidado, a solidariedade e a justiça. O problema é que essas práticas disputam espaço com estruturas que frequentemente recompensam a competição, a velocidade e o individualismo.


Reconhecer essa contradição é fundamental para não transformar a crítica à sociedade em mais uma forma de desesperança.


Psicoterapia existencialista: recuperar o sentido de ser humano


Se parte do problema está na maneira como organizamos nossa existência, talvez uma parte importante da transformação comece quando nos dispomos a questionar a maneira como estamos vivendo.


A psicoterapia existencialista oferece um espaço para essa investigação. Inspirada em diferentes tradições filosóficas, ela considera questões como liberdade, responsabilidade, finitude, escolhas, relações, angústia e construção de sentido. Não se limita a perguntar como alguém pode se adaptar melhor às exigências do cotidiano, mas também investiga quais exigências essa pessoa aceita, quais valores orientam suas decisões e que tipo de vida deseja construir.


A partir de uma perspectiva existencial, podemos nos perguntar: estamos vivendo de acordo com aquilo que consideramos importante ou apenas reproduzindo expectativas sociais? Quanto de nossas escolhas é sustentado por nossos desejos e quanto é orientado pelo medo de decepcionar, fracassar ou não ser reconhecido? O que estamos sacrificando para manter uma imagem de sucesso?


Essas perguntas não oferecem respostas prontas. Seu valor está justamente em abrir espaço para que cada pessoa examine a própria existência de maneira mais consciente.


Da produtividade à responsabilidade pelas escolhas


A psicoterapia pode ajudar o indivíduo a reconhecer os padrões que organizam sua rotina, identificar limites e compreender como determinadas expectativas afetam suas relações. Isso inclui aprender a dizer não, rever prioridades e perceber que descansar não significa abandonar responsabilidades.


Entretanto, a reflexão existencial não deve se transformar em uma nova obrigação de aperfeiçoamento. Não se trata de exigir que cada pessoa se torne permanentemente consciente, equilibrada e disponível para os outros, mas de reconhecer os próprios limites sem permitir que eles se convertam em justificativa para desconsiderar os limites alheios.


Da indiferença ao encontro com o outro


O encontro terapêutico também pode favorecer o reconhecimento da alteridade: a compreensão de que o outro existe para além de nossas expectativas, necessidades e interpretações.


Escutar verdadeiramente exige tolerar diferenças, reconhecer que não conhecemos integralmente a experiência de outra pessoa e abandonar a pretensão de ter sempre a interpretação correta. Esse exercício pode repercutir na maneira como nos relacionamos com familiares, parceiros, colegas de trabalho e pessoas com trajetórias distintas das nossas.


Isso não significa aceitar abusos, renunciar à própria identidade ou permanecer em relações prejudiciais. Humanidade não é submissão. É reconhecer a dignidade do outro sem abandonar a própria.


Da culpa à responsabilidade compartilhada


A psicoterapia existencialista também pode ajudar a diferenciar responsabilidade de culpa absoluta. Não somos individualmente responsáveis por todas as contradições do mundo, nem temos poder para resolver sozinhos problemas estruturais. Ainda assim, participamos das relações e dos ambientes que ajudamos a construir.


Podemos questionar nossos preconceitos, rever atitudes, interromper comportamentos violentos, estabelecer relações mais respeitosas e participar de iniciativas coletivas. A responsabilidade ganha sentido quando reconhecemos tanto os limites de nossa ação quanto as possibilidades reais de transformação.


É importante destacar que a psicoterapia não substitui políticas públicas, proteção social, educação ou mudanças nas condições de trabalho. O sofrimento produzido por desigualdades concretas não pode ser resolvido apenas com mudanças individuais. A reflexão clínica pode, contudo, ajudar a pessoa a compreender sua posição no mundo e a encontrar formas mais conscientes de agir dentro dele.


Pequenos gestos, transformações possíveis


Recuperar a humanidade não exige esperar por uma grande mudança histórica para começar. Embora transformações estruturais sejam indispensáveis, nossas relações cotidianas também constituem espaços concretos de mudança.


Podemos começar oferecendo atenção sem transformar toda conversa em uma disputa. Podemos evitar julgamentos precipitados, respeitar o tempo de quem precisa de ajuda, reconhecer quando erramos e reparar danos quando possível. Podemos deixar de compartilhar conteúdos que humilham pessoas, questionar preconceitos reproduzidos em nossos círculos sociais e tratar com dignidade quem exerce trabalhos frequentemente invisibilizados.


Também precisamos aprender a cuidar de nós mesmos sem transformar o autocuidado em mais um produto ou obrigação. Recuperar o tempo, estabelecer limites e descansar são atitudes importantes, mas não devem servir apenas para que voltemos a produzir mais. O descanso também pode ser uma maneira de existir sem precisar provar continuamente o próprio valor.


A solidariedade, nesse sentido, não precisa ser grandiosa para ser significativa. Às vezes, manifesta-se em uma escuta atenta, na disposição de compreender antes de condenar ou na coragem de não participar de uma violência coletiva, mesmo quando ela é socialmente aceita.


Nenhum gesto isolado elimina as contradições de uma sociedade inteira. No entanto, práticas consistentes de respeito, cuidado e responsabilidade podem melhorar a qualidade dos vínculos e fortalecer formas mais humanas de convivência.


Talvez precisemos reaprender a viver juntos


Em meio à exaustão contemporânea, é possível que tenhamos nos acostumado a tratar a vida como uma sequência de tarefas, metas e resultados. Nesse processo, corremos o risco de esquecer que viver não significa apenas realizar, conquistar ou superar obstáculos. Significa também compartilhar o mundo com pessoas que não pensam como nós, possuem histórias diferentes e, assim como nós, experimentam limites, perdas, desejos e incertezas.


A falta de humanidade não é apenas um problema do outro, de uma geração ou de uma sociedade distante. Ela também nos convida a examinar nossas próprias atitudes: os momentos em que escolhemos não escutar, as situações em que reproduzimos preconceitos e as ocasiões em que priorizamos nossa conveniência em detrimento da dignidade alheia.


Talvez não possamos eliminar toda a indiferença, mas podemos deixar de tratá-la como algo inevitável. Podemos construir relações em que a vulnerabilidade não seja motivo de vergonha, a diferença não seja sinônimo de ameaça e o valor de uma pessoa não dependa de sua utilidade.


A psicoterapia pode contribuir para esse processo ao criar um espaço de reflexão sobre quem somos, como escolhemos viver e quais relações desejamos construir. Mais do que oferecer fórmulas para uma vida perfeita, ela pode nos ajudar a reconhecer contradições, assumir responsabilidades possíveis e encontrar sentidos que não estejam limitados às exigências de desempenho.


Em uma sociedade que nos cobra tanto, talvez uma das perguntas mais necessárias seja também uma das mais simples: estamos tão ocupados tentando dar conta da vida que nos esquecemos de cuidar daquilo que faz a vida valer a pena?


Reaprender a ser humano talvez comece quando deixamos de perguntar apenas o que precisamos conquistar e voltamos a perguntar como desejamos existir — e que tipo de mundo nossas escolhas ajudam a construir.


Psicoterapia: um reencontro com a própria humanidade


Em uma sociedade que nos ensina a produzir antes de sentir, responder antes de refletir e competir antes de cooperar, reservar um espaço para olhar para dentro de si pode ser um ato de resistência.


A psicoterapia é um convite para interromper, ainda que por alguns instantes, o ritmo automático da existência. É a oportunidade de olhar para a própria história, reconhecer dores silenciadas, questionar padrões que se repetem e compreender como temos nos colocado diante da vida e das pessoas que fazem parte dela.


Na perspectiva existencialista, esse processo vai além de aliviar o sofrimento: envolve refletir sobre a liberdade, as escolhas, os limites, os valores e a responsabilidade que assumimos na construção de nossa existência. Significa perguntar se estamos vivendo de maneira coerente com aquilo em que acreditamos ou apenas tentando corresponder às expectativas de uma sociedade que parece nunca estar satisfeita.


Fazer psicoterapia é permitir-se questionar o modo como se vive para descobrir novas possibilidades de existir.


É nesse espaço de escuta e reflexão que podemos reconhecer nossas contradições sem nos reduzir a elas, compreender nossas dificuldades sem transformá-las em condenações e desenvolver uma relação mais consciente conosco e com os outros. Não se trata de alcançar uma versão perfeita de si mesmo, mas de construir uma existência mais autêntica, responsável e aberta ao encontro humano.


Talvez não consigamos mudar, sozinhos, a lógica de uma sociedade que transforma tudo em desempenho. Mas podemos começar a questionar o lugar que essa lógica ocupa em nossas vidas. Podemos aprender a estabelecer limites, reconhecer vulnerabilidades, rever atitudes e construir relações nas quais o respeito não seja uma exceção, mas um princípio.


A psicoterapia não oferece respostas prontas nem elimina todas as contradições da existência. Ela oferece algo essencial: um espaço em que perguntas importantes podem ser feitas, sentimentos podem ser reconhecidos e novas formas de compreender e conduzir a própria vida podem ser construídas.


Antes de nos perdermos completamente na urgência de dar conta de tudo, precisamos recuperar a possibilidade de compreender quem somos, o que estamos vivendo e como desejamos estar no mundo.


Cuidar da saúde emocional também é cuidar da humanidade que existe em nós.


Se você sente que está apenas sobrevivendo às exigências do cotidiano, que suas relações perderam a profundidade ou que já não encontra espaço para compreender o que sente e deseja, a psicoterapia pode ser um caminho para iniciar essa reflexão.


Não é preciso esperar chegar ao limite para buscar ajuda. Você não precisa ter todas as respostas, saber explicar o que sente ou enfrentar tudo sozinho para começar.


Talvez o primeiro passo para transformar a maneira como vivemos seja encontrar um espaço seguro para pensar sobre a vida que estamos construindo. A psicoterapia pode ser esse começo.


Referências bibliográficas


ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras.


FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes.


HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.


SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes.

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