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Ansiedade e carreira

Autor Psi. Priscila Mendes Bayer
8 de setembro de 2026


Escolher uma profissão já não parece suficiente.

É preciso escolher “certo”.


Ter um bom currículo.

Construir uma carreira.

Ganhar dinheiro.

Ter estabilidade.

Ser reconhecida.

Não ficar para trás.


E, de preferência, descobrir tudo isso antes dos 30.


Não é difícil entender por que a carreira se tornou um terreno fértil para a ansiedade.


A questão é que, muitas vezes, não estamos apenas preocupados com o nosso trabalho. Estamos tentando usar a carreira para responder perguntas muito maiores:


“Estou no caminho certo?”

“E se eu estiver desperdiçando meu potencial?”

“Será que estou atrasada?”

“E se eu escolher errado?”

“E se eu nunca chegar onde deveria?”


O problema começa quando a necessidade de construir uma trajetória profissional se transforma na necessidade de ter certeza sobre o futuro.


E certeza é justamente uma coisa que uma carreira não oferece.


A ansiedade pede garantias


Uma das características da ansiedade é a dificuldade de tolerar a incerteza.


Na carreira, isso pode aparecer de maneiras bastante funcionais — e por isso nem sempre é percebido como ansiedade.


A pessoa pesquisa exaustivamente antes de tomar uma decisão.


Faz cursos atrás de cursos.

Muda de estratégia constantemente.

Compara sua trajetória com a de outras pessoas.

Precisa saber qual será o retorno financeiro antes de começar.

Revê decisões que já tomou.


Ou trabalha cada vez mais porque acredita que, se fizer o suficiente, finalmente vai se sentir segura.


Só que existe uma armadilha aí:

quanto mais você tenta eliminar a incerteza, mais dependente fica da certeza.


E como ela nunca chega completamente, a ansiedade encontra sempre um novo motivo para continuar.


Nem toda dúvida precisa ser resolvida imediatamente


Existe uma diferença importante entre planejamento e controle.


Planejar uma carreira envolve analisar possibilidades, estabelecer objetivos, desenvolver competências e fazer escolhas.


Controlar a carreira envolve acreditar que, se você pensar o suficiente, fizer o suficiente e evitar erros suficientes, conseguirá garantir o resultado.


Não consegue.


Uma carreira é construída em um contexto que também envolve mercado, oportunidades, relações, mudanças econômicas, imprevistos e, principalmente, escolhas que você só consegue avaliar completamente depois de vivê-las.


Por isso, talvez uma pergunta mais produtiva do que:


“Como eu descubro qual é a escolha certa?”


seja:


“Qual escolha faz sentido com as informações e possibilidades que tenho hoje?”


Isso muda tudo.


Porque tira você da obrigação de prever o futuro e devolve a responsabilidade sobre o presente.


O custo de transformar carreira em prova de valor


Existe ainda outra camada.


Para algumas pessoas, o sofrimento profissional não está apenas relacionado ao medo de escolher errado.


Está relacionado ao que essa escolha significa sobre elas mesmas.


Se eu não cresci profissionalmente, talvez eu seja incompetente.


Se outra pessoa está ganhando mais, talvez eu esteja ficando para trás.


Se meu trabalho não deu certo, talvez eu tenha fracassado.


Se ainda não descobri “o que quero fazer da vida”, talvez exista algo errado comigo.


Quando a carreira passa a funcionar como uma espécie de prova permanente de valor pessoal, qualquer dificuldade profissional deixa de ser apenas uma dificuldade.


Ela vira uma ameaça à identidade.


E aí a cobrança aumenta.


A comparação aumenta.


A ansiedade aumenta.


E o descanso começa a parecer desperdício.


Uma carreira não precisa provar que você é suficiente


Talvez esse seja um dos pontos mais importantes quando falamos de ansiedade e carreira:


você pode querer crescer sem precisar usar o crescimento para provar o seu valor.


Pode querer ganhar mais.


Pode querer mudar de área.


Pode querer reconhecimento.


Pode querer uma carreira extraordinária.


Nada disso é o problema.


O problema aparece quando sua tranquilidade depende de finalmente chegar a algum lugar onde você acredita que, enfim, será suficiente.


Porque sempre haverá um próximo nível.


Uma nova meta.


Alguém ganhando mais.


Uma nova comparação.


Uma nova dúvida.


Construir uma carreira exige movimento, mas também exige tolerância à incerteza.


E talvez amadurecer profissionalmente tenha menos a ver com descobrir exatamente onde você estará daqui a dez anos e mais com conseguir tomar boas decisões sem exigir que o futuro lhe dê garantias antes.


A carreira pode ser uma parte importante da sua vida.


Só não precisa ser o tribunal onde você passa todos os dias para provar que é boa o bastante.

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