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Ciúmes: quando o medo de perder começa a afetar a relação

Autor Psi. Silvana Souza Poiani
18 de setembro de 2026
Ciúmes: quando o medo de perder começa a afetar a relação

Ciúmes: quando o medo de perder começa a afetar a relação

Sentir ciúmes é uma experiência humana e pode aparecer em diferentes tipos de relacionamento. Em algumas situações, ele surge diante do medo de perder alguém importante, de ser deixado de lado ou de não ser suficiente para a outra pessoa. O problema pode aparecer quando esse sentimento se torna frequente, intenso e começa a interferir na confiança, na liberdade e na qualidade da relação.

O ciúme não é uma emoção isolada. Ele pode estar acompanhado de medo, tristeza, raiva, insegurança e pensamentos relacionados à possibilidade de abandono ou rejeição. Por isso, compreender o que está por trás do ciúme pode ser um passo importante para lidar com ele de maneira mais saudável.


O que pode estar por trás do ciúme?

Cada pessoa vivencia o ciúme de uma maneira. Em algumas situações, ele pode estar relacionado a experiências anteriores de rejeição, abandono, traição ou relacionamentos marcados pela insegurança.

Também podem aparecer pensamentos como:

  • “Será que ele ainda gosta de mim?”
  • “E se encontrar alguém melhor?”
  • “Será que está escondendo alguma coisa?”
  • “Se ele demora para responder, alguma coisa deve estar acontecendo.”
  • “Preciso saber onde ele está para me sentir tranquila.”

Esses pensamentos podem aumentar a ansiedade e levar a pessoa a procurar constantemente sinais que confirmem ou afastem suas suspeitas.

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), pensamentos, emoções e comportamentos estão relacionados. Dessa forma, uma situação aparentemente pequena pode desencadear interpretações ameaçadoras, aumentando o sofrimento e levando a comportamentos de verificação ou busca de garantias.


Quando o ciúme começa a prejudicar a relação?

O ciúme merece atenção quando passa a ocupar muito espaço na vida da pessoa ou quando provoca comportamentos que prejudicam a relação.

Alguns exemplos podem incluir:

  • necessidade constante de saber onde o parceiro está;
  • verificar celular, mensagens ou redes sociais ou mensagens;
  • interpretar situações neutras como sinais de traição;
  • fazer perguntas repetidamente em busca de garantias;
  • sentir dificuldade em confiar mesmo sem evidências de que algo esteja acontecendo;
  • tentar controlar amizades, roupas, horários ou atividades do parceiro;
  • discussões frequentes relacionadas à desconfiança;
  • sofrimento intenso quando a outra pessoa não responde imediatamente.

É importante diferenciar sentir ciúmes de agir de maneira controladora. Uma emoção pode surgir sem que precisemos transformá-la automaticamente em uma atitude.


Ciúme e insegurança

Em algumas pessoas, o ciúme pode estar relacionado a uma percepção negativa de si mesmas.

Pensamentos como “não sou interessante o suficiente”, “vou ser abandonada” ou “a outra pessoa é melhor do que eu” podem contribuir para sentimentos de insegurança.

Nessas situações, o foco pode deixar de ser apenas o comportamento do parceiro e passar a envolver também a maneira como a própria pessoa percebe seu valor, suas capacidades e sua possibilidade de ser amada.

Trabalhar essas crenças pode ajudar a desenvolver uma relação mais segura consigo mesma e com o outro.


Como lidar com o ciúme?

O primeiro passo pode ser reconhecer o que acontece internamente antes de reagir.

Uma possibilidade é observar:

Situação: O que aconteceu?

Pensamento: O que passou pela minha cabeça naquele momento?

Emoção: O que senti e com que intensidade?

Comportamento: O que tive vontade de fazer ou o que realmente fiz?

Evidências: O que tenho de concreto que sustenta esse pensamento? Existe outra possibilidade para explicar a situação?

Esse exercício não significa ignorar os sentimentos. Pelo contrário, significa aprender a compreendê-los antes de tomar decisões ou agir impulsivamente.

Também pode ser importante desenvolver uma comunicação mais clara dentro do relacionamento. Falar sobre sentimentos e necessidades é diferente de acusar, ameaçar ou controlar.

Por exemplo, dizer “quando isso acontece, eu percebo que fico insegura e gostaria de conversar sobre isso” pode abrir espaço para o diálogo de uma maneira diferente de uma acusação.


Quando procurar ajuda psicológica?

Quando o ciúme provoca sofrimento frequente, conflitos constantes, comportamentos de controle ou dificuldade para viver a relação com tranquilidade, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender essas experiências.

Na terapia, é possível investigar pensamentos, emoções, experiências anteriores e padrões de comportamento que podem estar mantendo o sofrimento.

O objetivo não é simplesmente “deixar de sentir ciúmes”, mas compreender o que esse sentimento comunica e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com inseguranças, medo, ansiedade e conflitos relacionais.

Cuidar da saúde emocional também envolve aprender a construir relações baseadas em diálogo, respeito, limites e confiança — sem deixar de reconhecer que relacionamentos também podem envolver vulnerabilidade e incertezas.


Para refletir

O meu ciúme está me ajudando a compreender uma necessidade ou está fazendo com que eu tente controlar aquilo que não posso controlar?

Reconhecer essa diferença pode ser um primeiro passo para olhar para si com mais compreensão e buscar novas formas de se relacionar.


Referências

BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.

BECK, Aaron T.; FREEMAN, Arthur; DAVIS, Denise D. Terapia cognitiva dos transtornos da personalidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.

BOWLBY, John. Apego e perda: apego. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

MARTINS, Paulo C.; CARVALHO, Letícia F. Ciúme romântico e relacionamento conjugal: aspectos psicológicos e relacionais. Psicologia: Teoria e Prática, estudos sobre relações afetivas e ciúme.

NEFF, Kristin. Autocompaixão: pare de se torturar e deixe a insegurança para trás. São Paulo: Editora BestSeller, 2017.


Silvana Souza Poiani

Psicóloga Clínica | TCC

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