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Estresse

Autor Psi. Douglas Carvalho
21 de setembro de 2026
 Estresse

Estresse e ansiedade na infância e adolescência: uma perspectiva Comportamental

A infância e a adolescência são períodos marcados por importantes mudanças emocionais, sociais e comportamentais. Ao longo dessas fases, crianças e adolescentes podem vivenciar situações que envolvem cobranças, mudanças na rotina, conflitos familiares, dificuldades escolares, relações sociais, inseguranças e preocupações com o futuro. Diante dessas experiências, manifestações de estresse e ansiedade podem aparecer de diferentes formas e interferir na qualidade de vida.

Sentir ansiedade ou estresse não significa, necessariamente, que exista um problema psicológico. Essas respostas fazem parte do repertório humano e podem exercer funções importantes, como preparar o indivíduo para lidar com situações novas ou potencialmente ameaçadoras. A questão clínica surge quando essas respostas se tornam muito frequentes, intensas ou passam a restringir a participação da criança ou do adolescente em atividades importantes de sua vida.


Compreendendo a ansiedade pela Análise do Comportamento

Na perspectiva da Análise do Comportamento, não é necessário compreender a ansiedade apenas como algo que acontece "dentro" da pessoa. É possível observar a relação entre o indivíduo e o ambiente, considerando os acontecimentos que antecedem determinado comportamento e as consequências que podem contribuir para sua manutenção.

Por exemplo, uma criança que sente medo de apresentar um trabalho na escola pode começar a evitar situações em que precise falar diante da turma. Ao permanecer em casa ou conseguir não realizar a apresentação, pode experimentar uma redução imediata da ansiedade. Essa consequência pode aumentar a probabilidade de que a esquiva volte a ocorrer diante de situações semelhantes.

Assim, embora evitar determinada situação possa proporcionar alívio no curto prazo, a esquiva pode ampliar as dificuldades no longo prazo. A criança pode ter cada vez menos oportunidades de aprender que é capaz de lidar com situações desconfortáveis.

Por isso, a intervenção comportamental busca compreender a função dos comportamentos e as contingências envolvidas, em vez de simplesmente tentar eliminar uma emoção considerada negativa.


A ansiedade não precisa ser eliminada para que a vida continue

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), fundamentada na tradição comportamental, acrescenta uma perspectiva importante para o trabalho com ansiedade.

Em vez de colocar como objetivo principal o desaparecimento de pensamentos ou sentimentos desagradáveis, a ACT trabalha o desenvolvimento da flexibilidade psicológica. Isso significa ajudar a criança ou o adolescente a entrar em contato com suas experiências internas sem precisar organizar toda a sua vida em função de evitar aquilo que sente.

Uma criança pode pensar: "E se todo mundo rir de mim?". Um adolescente pode pensar: "Eu não vou conseguir". Esses pensamentos podem produzir medo, insegurança ou tensão. O objetivo não é necessariamente convencer a pessoa de que esses pensamentos são falsos, mas ajudá-la a perceber que pensamentos são eventos psicológicos e que ela pode escolher como responder a eles.

Essa mudança pode ser especialmente importante durante a adolescência, período em que pensamentos relacionados à aceitação social, desempenho, aparência, identidade e futuro podem adquirir grande relevância.


Evitação experiencial

Um dos conceitos importantes da ACT é a evitação experiencial, que ocorre quando a pessoa tenta controlar, eliminar ou fugir de experiências internas consideradas desagradáveis, como pensamentos, emoções, lembranças ou sensações físicas.

Na infância e na adolescência, isso pode aparecer de diversas maneiras: evitar situações sociais, desistir de atividades por medo de errar, faltar à escola, buscar constantemente garantias dos adultos, procrastinar tarefas ou permanecer excessivamente conectado a determinadas atividades como forma de afastar sentimentos desconfortáveis.

É importante compreender que esses comportamentos não devem ser interpretados simplesmente como "falta de vontade" ou "manha". Muitas vezes, eles possuem uma função: reduzir ou afastar uma experiência desagradável naquele momento.

O trabalho terapêutico pode ajudar a ampliar o repertório comportamental para que a criança ou o adolescente tenha outras possibilidades de resposta.


Valores e comportamentos significativos

Outro elemento central da ACT é o trabalho com valores.

Na infância e principalmente na adolescência, é possível explorar aquilo que é importante para o indivíduo: amizades, família, estudos, esporte, criatividade, autonomia, respeito, aprendizado ou participação em atividades significativas.

A pergunta deixa de ser apenas "Como faço para não sentir ansiedade?" e passa a incluir:

"Mesmo sentindo ansiedade, que tipo de pessoa eu quero ser e o que é importante para mim?"

Essa mudança ajuda a construir comportamentos orientados por aquilo que possui significado para o indivíduo, e não exclusivamente pelo desejo de eliminar o desconforto.

Por exemplo, um adolescente que valoriza suas amizades pode aprender a se aproximar de outras pessoas mesmo percebendo insegurança ou medo de rejeição. O objetivo não é garantir que ele não sentirá ansiedade, mas possibilitar que a ansiedade não determine completamente suas escolhas.


O papel da família

O ambiente familiar possui papel fundamental nesse processo. Pais e responsáveis podem, muitas vezes sem perceber, reforçar comportamentos de esquiva ao tentar proteger a criança de qualquer situação que provoque desconforto.

Isso não significa que os responsáveis devam ignorar o sofrimento ou obrigar a criança a enfrentar situações para as quais não está preparada. O objetivo é encontrar um equilíbrio entre acolher a experiência emocional e favorecer oportunidades graduais de desenvolvimento de habilidades.

Frases como "Eu sei que isso está difícil, vamos pensar juntos em como você pode lidar com isso" podem favorecer um ambiente de acolhimento e aprendizagem.

Além disso, é importante que os adultos observem seus próprios comportamentos diante da ansiedade da criança. A forma como pais, professores e outros cuidadores respondem às manifestações emocionais pode influenciar a maneira como a criança aprende a lidar com situações difíceis.


A escola como parte da intervenção

A escola também ocupa um espaço importante na vida de crianças e adolescentes. Dificuldades acadêmicas, conflitos entre colegas, bullying, mudanças de turma, pressão por desempenho e dificuldades de socialização podem estar relacionados ao aumento do estresse.

Uma abordagem comportamental pode contribuir para identificar situações específicas em que as dificuldades aparecem, quais comportamentos são emitidos e quais consequências estão mantendo determinado padrão.

Em alguns casos, intervenções articuladas entre família, escola e profissionais de saúde podem favorecer resultados mais consistentes, respeitando sempre as necessidades individuais da criança ou do adolescente.


Mais do que controlar a ansiedade

O objetivo de uma intervenção psicológica não precisa ser transformar a criança em alguém que nunca sente medo, preocupação ou insegurança. Essas experiências fazem parte da vida.

O trabalho pode estar direcionado para ampliar repertórios, desenvolver habilidades de enfrentamento, reduzir padrões excessivos de esquiva e aumentar a capacidade de participar de atividades importantes mesmo diante de emoções difíceis.

A partir da Análise do Comportamento, busca-se compreender a função dos comportamentos e as relações estabelecidas entre indivíduo e ambiente. A ACT, por sua vez, oferece ferramentas para trabalhar aceitação, desfusão cognitiva, contato com o momento presente, valores e ação comprometida.

Dessa forma, ansiedade e estresse deixam de ser vistos apenas como algo que precisa ser eliminado e passam a ser compreendidos dentro de uma relação mais ampla entre pensamentos, emoções, comportamentos e contexto.

Na infância e na adolescência, aprender que emoções desagradáveis podem ser experimentadas sem que elas determinem todas as escolhas pode representar uma habilidade importante para o desenvolvimento. Afinal, saúde emocional não significa nunca sentir desconforto, mas construir recursos para continuar vivendo de maneira significativa mesmo quando ele aparece.

Referências teóricas sugeridas:

  • Hayes, S. C.; Strosahl, K. D.; Wilson, K. G. Acceptance and Commitment Therapy: An Experiential Approach to Behavior Change.
  • Harris, R. ACT Made Simple.
  • Skinner, B. F. Ciência e Comportamento Humano.
  • Kohlenberg, R. J.; Tsai, M. Functional Analytic Psychotherapy: Creating Intense and Curative Therapeutic Relationships.
  • LUCENA-SANTOS, Paola et al. (org.). Manual Internacional da Terapia de Aceitação e Compromisso: o livro essencial da ACT. Camaquã, RS: Fênix Sefarad, 2023.
  • FLAXMAN, Paul E.; BLACKLEDGE, J. T.; BOND, Frank W. Terapia de aceitação e compromisso. Novo Hamburgo: Sinopsys Editora, 2022.


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