Estresse: quando o corpo também fala
Vivemos em uma época em que estar cansado parece ter se tornado parte da rotina. São muitas responsabilidades, cobranças, prazos, trabalho, família, relações e a sensação constante de que precisamos dar conta de tudo. Nesse contexto, é comum ouvirmos alguém dizer: “Estou estressado”. Mas, pelo viés psicanalítico, talvez seja interessante ir além dessa afirmação e perguntar: o que esse estresse está dizendo sobre esse sujeito?
O estresse pode ser compreendido como uma resposta diante de situações de sobrecarga, mas, na clínica, também podemos olhar para a forma singular como cada pessoa se relaciona com aquilo que a sobrecarrega. Afinal, duas pessoas podem vivenciar situações semelhantes e responder de maneiras muito diferentes. Existe aquilo que o mundo nos exige, mas existe também aquilo que nós mesmos nos exigimos. E, muitas vezes, essa segunda dimensão é ainda mais difícil de perceber.
Há pessoas que vivem sob uma exigência constante de produtividade, de disponibilidade e de perfeição. Precisam ser boas profissionais, boas mães, boas filhas, boas companheiras e, principalmente, precisam dar conta. Descansar pode provocar culpa, dizer “não” pode produzir ansiedade e pedir ajuda pode ser vivido como sinal de fraqueza ou incompetência. Aos poucos, aquilo que inicialmente era apenas uma tentativa de corresponder às demandas externas pode se transformar em uma exigência interna difícil de sustentar.
É nesse ponto que podemos pensar que o estresse não está apenas relacionado à quantidade de coisas que uma pessoa precisa fazer, mas também à posição que ela ocupa diante dessas demandas. Por que é tão difícil parar? O que significa não dar conta? O que essa pessoa acredita que aconteceria se decepcionasse alguém? Por que precisa provar constantemente o próprio valor? O que sente quando não está sendo útil?
Essas perguntas são importantes porque, muitas vezes, o excesso de atividades também pode funcionar como uma maneira de não entrar em contato com determinados conflitos. Enquanto estamos ocupados, produzindo e tentando resolver tudo, talvez não precisemos olhar para aquilo que nos angustia. Por isso, dizer simplesmente “você precisa desacelerar” pode não ser suficiente. É preciso compreender o que sustenta essa dificuldade de desacelerar.
Na perspectiva psicanalítica, o sujeito não é completamente transparente para si mesmo. Nem sempre sabemos por que repetimos determinados comportamentos, por que permanecemos em situações que nos fazem sofrer ou por que sentimos tanta culpa quando tentamos cuidar de nós mesmos. O sofrimento pode apontar para algo que ainda não conseguimos elaborar ou colocar em palavras.
O corpo também pode participar dessa expressão. Cansaço, tensão, alterações no sono, dores e outras manifestações podem aparecer em momentos de intenso sofrimento. Isso não significa afirmar que todo sintoma físico possui uma causa psíquica ou desconsiderar fatores médicos e ambientais, mas reconhecer que aquilo que vivemos também atravessa nosso corpo. Quando determinadas experiências não encontram espaço para serem elaboradas, o sofrimento pode encontrar outras formas de se manifestar.
Por isso, cuidar do estresse não significa apenas organizar melhor a rotina ou aprender técnicas para administrar o tempo. Em alguns casos, significa também olhar para a relação que o sujeito estabeleceu com suas próprias exigências. Talvez seja necessário reconhecer limites, sustentar algumas frustrações, permitir-se não dar conta de tudo e questionar algumas das expectativas que foram tomadas como verdades.
Às vezes, o que precisa ser reduzido não é somente a quantidade de tarefas, mas a necessidade de corresponder o tempo inteiro.
Talvez o “estou estressado” seja apenas o começo de uma pergunta muito maior: o que, em mim, está exigindo tanto?
E é justamente nessa escuta que a clínica pode abrir espaço para que o sujeito não apenas diminua o excesso, mas comece a compreender o que existe por trás dele.