Porque homens buscam menos terapia ?
Ainda hoje, é raro cruzar com um homem que fale abertamente sobre estar em terapia. Se o assunto surge, costuma vir com uma ressalva, quase um pedido de desculpas — "não é nada demais, só umas conversas". Enquanto isso, a saúde mental masculina segue como um dos temas mais adiados, mesmo quando o sofrimento já está claramente ali. Não é falta de dor. É que, para muitos homens, admitir a dor parece custar mais caro do que simplesmente aguentá-la em silêncio. Entender por que isso acontece é o primeiro passo para mudar essa história — tanto na vida pessoal quanto na forma como pensamos o cuidado psicológico voltado para eles.
O mito da autossuficiência
Desde cedo, muitos meninos aprendem, direta ou indiretamente, que problemas se resolvem sozinhos. Chorar é coisa de fraco, pedir ajuda é admitir derrota, e sentir é algo que se guarda, não que se divide. Essa cultura da autossuficiência não nasce do nada: ela é reforçada em casa, na escola, entre amigos e, mais tarde, no trabalho. Pesquisadores que estudam masculinidade e saúde mental, como Addis (2008), apontam que homens — especialmente os mais jovens — evitam buscar apoio psicológico por medo de que isso ameace sua identidade masculina. Não é desinteresse pelo próprio bem-estar. É medo de deixar de parecer "homem o suficiente".
A pressão de ser provedor e nunca falhar
Existe um roteiro social ainda muito presente: o homem como pilar, aquele que sustenta a casa, resolve os problemas dos outros e não pode vacilar. Esse papel, mesmo quando não é imposto de forma explícita, cobra um preço emocional alto. Errar vira sinônimo de fracasso pessoal, e pedir ajuda pode soar como admitir que o pilar está rachando. Estudos sobre normas de masculinidade, como os de Mahalik (2003), associam esse ideal de força e controle emocional a uma resistência maior em procurar suporte psicológico, mesmo diante de sofrimento evidente. O resultado é um ciclo: quanto mais a pessoa tenta parecer inabalável, mais sozinha ela fica quando as coisas desandam.
O que os números mostram
Os dados confirmam o que a observação clínica já sugeria. Levantamentos de clínicas de saúde mental no Brasil apontam que homens representam pouco mais de um terço dos pacientes em acompanhamento psicológico. E as consequências dessa distância em relação ao cuidado emocional aparecem em estatísticas mais graves: dados do Ministério da Saúde referentes a 2019 mostram uma taxa de mortalidade por suicídio de 10,7 por 100 mil homens, contra 2,9 por 100 mil mulheres — uma diferença que a Organização Mundial da Saúde também identifica globalmente, com taxas cerca de duas vezes maiores entre homens. Isso não significa que homens sofram mais do que mulheres, mas que enfrentam barreiras maiores para reconhecer o sofrimento e buscar ajuda antes que ele se agrave.
Um espaço para não precisar sustentar nada
Um dos aspectos mais valiosos da Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, é justamente a ideia de que a terapia não é um lugar de avaliação ou julgamento, mas de escuta genuína e aceitação incondicional. Para um homem que passou a vida inteira sendo cobrado por resultados, competência e controle, esse tipo de espaço tem um valor particular: ali, ele não precisa sustentar imagem nenhuma. Não precisa ter a resposta certa, não precisa provar força, não precisa proteger ninguém — nem a si mesmo — da própria vulnerabilidade.
Já observei isso de perto, em homens da minha própria vida e em mim mesmo: a dificuldade não costuma estar em não ter o que dizer, mas em nunca ter tido um espaço onde dizer aquilo fosse seguro. Quando esse espaço aparece, muita coisa que parecia trancada encontra caminho para sair — não porque a pessoa ficou "mais fraca", mas porque finalmente parou de gastar energia fingindo estar bem.
Pequenos passos contam
Procurar terapia não exige ter um problema grande ou uma crise declarada. Pode começar de um jeito bem mais simples: notar que o cansaço não é só físico, que a irritação constante esconde outra coisa, ou que faz tempo que ninguém pergunta "e você, como está?" — e que, se perguntassem, a resposta não seria tão simples. Reconhecer isso já é um movimento em direção à própria saúde mental, mesmo que o passo seguinte ainda não esteja claro.
Vale lembrar também que buscar apoio não precisa significar abrir mão da própria masculinidade ou de tudo o que ela representa de bom — coragem, responsabilidade, cuidado com quem se ama. Significa apenas ampliar o repertório: acrescentar a capacidade de pedir ajuda às outras qualidades que já existem. Homens que passam por terapia não deixam de ser provedores, líderes ou parceiros — muitas vezes, passam a exercer esses papéis com menos peso e mais clareza, porque já não estão carregando tudo sozinhos.
Para refletir
Se você é homem e chegou até aqui, talvez valha a pena parar por um instante e se perguntar: há quanto tempo você não conversa de verdade sobre o que sente, sem precisar minimizar ou justificar? Não é sobre ter uma resposta pronta agora — é sobre permitir que a pergunta exista.