Preguiça? Será mesmo?
Você se considera uma pessoa preguiçosa? Costuma procrastinar e relaciona isso à preguiça? Será que a causa é preguiça mesmo?
A análise do comportamento vê a procrastinação de uma outra forma.
Todo comportamento tem uma função, e com a procrastinação não é diferente. Quando estamos diante de uma tarefa chata e tediosa ou que nos causa algum tipo de ansiedade, não é estranho que queiramos fugir dela né? Seja uma tarefa doméstica, um trabalho acadêmico, um projeto a ser entregue no trabalho, ou até uma decisão que precisa ser tomada... No momento em que dizemos "amanhã eu faço" ou "depois eu vejo isso" e nos envolvemos em qualquer outra atividade — como mexer no celular, assistir mais um episódio ou adiantar uma tarefa menos importante —, geralmente sentimos alívio. Aquele desconforto que pensar em fazer aquela tarefa específica trouxe vai embora.
Quando um comportamento reduz ou elimina um desconforto, ele tende a se repetir. Nosso cérebro segue basicamente esse raciocínio: "isso é desconfortável" -> "se eu fizer isso aqui o desconforto some" -> "é só fazer o mesmo nas próximas". O problema é que a tarefa não desaparece junto com o desconforto. Ela continua ali ainda precisando ser feita e, conforme o prazo vai se aproximando, a sua ansiedade aumenta. E é aí que costuma vir a culpa: "se eu não tivesse enrolado tanto não teria esse problema agora", "sou muito preguiçosa mesmo", "o que tem de errado comigo? por que não consigo simplesmente fazer?", e isso também é desconfortável.
Basicamente, o custo daquele alívio imediato é o desconforto a longo prazo.
Não adianta se condenar nem se cobrar por "falta de força de vontade". O problema não é esse.
E qual o problema real então?
Você não está competindo com preguiça. Você está competindo com um alívio imediato que seu corpo aprendeu a buscar. O alívio imediato sempre vai ser mais atraente do que uma recompensa que virá só mais pra frente e isso não é culpa sua. Nosso cérebro simplesmente prioriza o bem-estar instantâneo, a recompensa imediata.
Mas existe algo chamado plasticidade cerebral, que significa, basicamente, que o nosso cérebro é mutável, moldável. Podemos ensiná-lo a priorizar o bem-estar a longo prazo e o primeiro passo para isso é entender qual o desconforto específico que determinada tarefa nos causa. É medo de não conseguir? De errar? É a presença de pequenas decisões dentro dela? É o tédio?
Depois que compreendemos o que estamos evitando, o próximo passo não precisa ser um grande enfrentamento — pode, e talvez deva, ser pequeno. Se o desconforto vem do medo de errar, o primeiro passo não é sentar e fazer o trabalho inteiro. É abrir o documento e escrever uma frase, mesmo que seja uma ruim — você pode mudar depois. Se vem do tédio, talvez funcione dividir a tarefa em pequenas partes para serem feitas aos poucos, com pausas entre uma e outra. Quanto menor e mais concreto o passo, menor o desconforto que ele provoca, e mais fácil fica de competir com a procrastinação.
Não é sobre nunca mais procrastinar. É sobre entender o que está por trás e diminuir sua frequência de forma que não prejudique mais a sua vida.