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Você quer essa pessoa ou ser escolhida por ela?

Autor Psi. Patricia Aparecida Simões Ramos
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31 de agosto de 2026

Existe uma diferença importante entre desejar alguém e desejar ser escolhido por alguém.

Às vezes, o que nos mantém presos a uma relação não é necessariamente aquilo que encontramos no outro, mas aquilo que imaginamos que aconteceria conosco se, finalmente, fôssemos escolhidos por aquela pessoa.

“Se ele me escolher, então eu vou saber que sou suficiente.”

“Se ela voltar, significa que eu realmente fui importante.”

“Se essa pessoa assumir um relacionamento comigo, talvez eu finalmente me sinta segura.”

Nesses casos, o desejo pelo outro pode estar misturado a uma necessidade de confirmação sobre o próprio valor.

Isso pode acontecer especialmente em relações marcadas pela incerteza: pessoas que se aproximam e se afastam, relações que nunca se definem, alguém que demonstra interesse em um momento e desaparece no outro. A ausência pode produzir uma busca ainda maior pela presença.

E quanto menos se recebe, mais se pode desejar.

Não porque aquela pessoa necessariamente tenha se tornado mais interessante, mas porque a falta pode intensificar a fantasia.

A psicanálise nos ajuda a pensar que o desejo não funciona simplesmente pela lógica da satisfação. Aquilo que falta pode ocupar um espaço enorme em nossa vida psíquica. Quando o outro não está totalmente disponível, abre-se espaço para imaginar, idealizar e atribuir a ele características que talvez nem estejam presentes na relação real.

Por isso, algumas pessoas permanecem emocionalmente investidas em relações que, concretamente, oferecem muito pouco.

Não estão necessariamente presas apenas à pessoa.

Podem estar presas àquilo que a escolha daquela pessoa representaria.

Ser escolhida poderia significar: “eu sou desejável”, “eu sou importante”, “eu fui suficiente”, “dessa vez alguém ficou”.

E então surge uma pergunta difícil, mas importante:

Se essa pessoa estivesse disponível, interessada e pronta para oferecer uma relação recíproca, você ainda a desejaria da mesma maneira?

Essa pergunta não significa que todo desejo por alguém indisponível seja uma tentativa de validação. Nem significa que exista algo “errado” com quem se envolve nesse tipo de relação.

O ponto é perceber o que está sustentando aquele vínculo.

Porque pode existir uma diferença entre querer estar com alguém e querer conquistar alguém que não está disponível.

Quando o objetivo passa a ser fazer o outro escolher você, a relação pode deixar de ser um encontro entre duas pessoas e se transformar em uma espécie de prova.

Uma prova de valor.

E, nesse lugar, o sofrimento pode aumentar: cada mensagem que não chega, cada afastamento, cada mudança de comportamento passa a ser interpretada como uma confirmação ou ameaça ao próprio valor.

É nesse momento que talvez valha a pena deslocar a pergunta.

Em vez de apenas:

“Como faço essa pessoa me escolher?”

perguntar:

“Por que ser escolhida por essa pessoa se tornou tão importante para mim?”

Essa mudança pode abrir espaço para compreender algo mais profundo sobre a própria história, sobre os modelos de relação que foram construídos ao longo da vida e sobre aquilo que se busca no amor.

Porque uma relação não deveria precisar funcionar como um exame permanente do nosso valor.

Ser amado por alguém pode ser uma experiência importante. Mas talvez seja necessário reconhecer que o fato de alguém não nos escolher não é uma medida objetiva do nosso valor.

Às vezes, amadurecer no amor também envolve perceber que não queremos mais passar tanto tempo tentando convencer alguém a nos escolher.

E começar a perguntar se, diante daquilo que essa pessoa realmente oferece, nós também a escolheríamos.

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