E no fim, não era sobre o café.
Há alguns dias recebi uma paciente que chegou querendo desistir da sessão. A dor estava intensa, o dia pesado e a saída mais rápida parecia ser o isolamento. Ela me disse exatamente o que costuma anteceder o silêncio: "Não tenho nada para falar hoje, só quero chorar."
Quando a vulnerabilidade é grande, recolher-se nem sempre é proteção. Muitas vezes é só a sabotadora interna ganhando espaço. Eu poderia ter acolhido o cancelamento, mas acolher não é abandonar a pessoa com os próprios pensamentos no pior momento. Então fiz um convite simples: "Se não tem nada sobre a dor para me contar hoje, me conta como você faz o seu café."
A resposta veio na defensiva: "Eu nem sei fazer café. Já me ensinaram várias vezes, mas tudo o que eu faço sai errado."
Fomos investigar essa tal "incapacidade". Descobri que ela não sabia fazer café porque nunca tinha parado para entender como ela gostava da bebida. Ela passava a vida tentando reproduzir o café da casa dos outros, buscando referências externas sem jamais consultar o próprio paladar — se gostava dele mais forte, mais fraco, com pouco ou muito açúcar.
Ela não acertava a receita porque não sabia qual resultado buscava para si.
Na Psicologia, Carl Rogers nos ensina sobre a tendência à atualização: a ideia de que todo ser humano tem uma direção natural para o crescimento, desde que encontre um ambiente de aceitação e liberdade para descobrir quem é. Quando não sabemos do que gostamos, qualquer padrão alheio serve — e qualquer falha em reproduzi-lo vira motivo para nos depreciarmos.
A sessão durou mais de duas horas. Começou na dor e terminou entre gargalhadas, enquanto analisávamos receitas e formas de preparar a bebida.
O café nunca foi sobre o café. Era sobre autonomia, sobre descobrir o próprio gosto e entender que estar presente para si mesma — mesmo em um dia difícil — já é um ato de amor próprio.🌷
Referência: ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009.