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O café e o amor que ninguém pode me dar.

Autor Psi. Adriana
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2 de agosto de 2026
O café e o amor que ninguém pode me dar.

O algoritmo insistiu por dias: "Quer se sentir amada por um eletrodoméstico? Programe a cafeteira e acorde com o cheiro de café passando sozinho pela casa."

A promessa era tentadora. Afinal, quem não quer a sensação de ter o dia iniciado com um gesto de cuidado? Esperei 24 horas para ter certeza de que não era só impulso. Depois, levei três semanas. Olhava as contas, pesquisava, colocava tudo na balança. Até que veio aquele pensamento sutil: "Eu mereço." Comprei. Parcelado — em suaves prestações que deixaram a compra mais cara, mas cabiam no orçamento daquele momento.

A cafeteira chegou. É linda, moderna, elegante. Mas é só uma cafeteira.

A expectativa de me sentir cuidada por um robô de cozinha durou até o primeiro gole. Faltava algo. Comentei, brincando, com alguns pacientes: "A cafeteira não me amou o suficiente."

Há dois dias, voltei para o coador de pano.

Voltei porque percebi que ninguém — e nenhum objeto — pode me amar melhor do que eu mesma. O café que eu faço no pano foi construído na minha própria observação, ajustado ao meu paladar, feito no meu tempo. O ritual de colocar a água para esquentar, o aroma subindo devagar, o gesto consciente... tudo isso faz parte de um prazer que é meu. Nenhuma máquina programada consegue replicar o afeto que coloco naquilo que construí para mim.

A Psicologia Analítica de Carl Jung nos traz um conceito muito claro sobre a projeção: o movimento de depositar em coisas, pessoas ou promessas externas conteúdos e necessidades que pertencem ao nosso universo interno. Eu projetei a minha necessidade de cuidado em uma compra automática e me frustrei quando percebi que o objeto só entrega a função mecânica, mas jamais o afeto que eu esperava sentir.

A cafeteira continua lá na cozinha. Um lembrete diário (e mensal, na fatura do cartão) de que o impulso e a expectativa às vezes nos pregam peças. Precisei comprar? Sim. Precisei me arrepender? Também.

Mas a beleza da experiência humana está justamente aí. O que para qualquer pessoa é apenas "um eletrodoméstico parado no balcão", para mim se tornou uma lição sobre escolhas, autonomia e o recolhimento das minhas próprias projeções.

Nós erramos. Decidimos caminhos, compramos ideias, entramos em relacionamentos ou tomamos decisões baseadas no que prometem nos entregar, até percebermos que a resposta sempre precisou vir de dentro. Se eu não errasse, não perceberia os outros caminhos possíveis. O erro não é um ponto final; é bagagem. É o arrependimento momentâneo se transformando em clareza para o resto da vida.

Decidir o que você quer, como quer, para onde vai, se fica ou se sai... tudo isso exige passar pelas suas próprias reflexões. Não dá para delegar para o outro — e nem para o algoritmo — o cuidado que só você sabe se dar.

Hoje o café foi no coador de pano. E saiu exatamente do jeito que eu gosto. 🌷



Referência: JUNG, Carl Gustav. A Ocultação do Eu: O Eu e o Inconsciente. Em: Obras Completas de C.G. Jung, Vol. 7/2. Petrópolis: Vozes, 2014.

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