Amar também se aprende
Forma de amar e os conflitos amorosos, o que nossas relações revelam sobre a maneira como aprendemos a amar?
O amor é uma coisa curiosa. Há quem passe anos procurando alguém para dividir a vida e, quando finalmente encontra, passe outros tantos tentando compreender como conviver com essa pessoa. Uma palavra mal colocada estraga o domingo, uma mensagem sem resposta desperta suspeitas e uma discussão que começou por uma bobagem termina trazendo à tona problemas de anos. Quem nunca viveu ou presenciou algo parecido?
Tenho pensado bastante sobre como aprendemos a amar. Afinal, ninguém nasce sabendo o que é fidelidade, ciúme, compromisso ou mesmo aquilo que devemos esperar de alguém que amamos. Aprendemos tudo isso vivendo. Observamos nossos pais, ouvimos histórias, sofremos nossas primeiras decepções e, pouco a pouco, construímos uma ideia do que significa estar com alguém. O curioso é que, muitas vezes, chegamos à vida adulta sem sequer desconfiar de quanto dessas experiências continua orientando nossos sentimentos.
Veja a discussão sobre monogamia e não monogamia. Durante muito tempo, aprendemos a reconhecer o amor pela exclusividade, como se amar alguém significasse necessariamente desejar e se relacionar apenas com aquela pessoa. Hoje, outras formas de relacionamento ganham espaço e provocam discussões importantes. Mas seria ingenuidade imaginar que mudar os acordos de uma relação resolveria, por si só, os problemas que carregamos. Há pessoas profundamente inseguras em relações monogâmicas, assim como existem conflitos, ciúmes e sofrimentos em relações não monogâmicas.
No fundo, me parece que discutimos bastante sobre como os relacionamentos deveriam funcionar e muito pouco sobre as pessoas que vivem dentro deles.
O ciúme é um bom exemplo. Às vezes, nasce de uma experiência dolorosa, de uma traição, do medo de ser abandonado. Em outras situações, vem acompanhado daquela velha ideia de que a pessoa amada nos pertence de alguma maneira. E há quem, por medo de perder alguém, comece a vigiar horários, amizades, roupas e conversas. O relacionamento vai se tornando uma espécie de investigação permanente, na qual qualquer gesto pode ser transformado em prova de alguma coisa.
Além de que o amor também carrega as marcas da sociedade em que vivemos. Por isso, desconfio das receitas prontas sobre relacionamentos. Cada casal tem sua história, seus acordos e suas dificuldades. O que me interessa, enquanto psicólogo, é compreender como aquelas pessoas chegaram a viver daquela maneira. Por que determinadas situações despertam tanto medo? Por que algumas discussões se repetem durante anos? Como alguém que desejava compartilhar a vida com outra pessoa acaba vivendo uma relação marcada por cobranças, insegurança e sofrimento?
Na psicoterapia, podemos olhar para essas questões com o cuidado que elas merecem. Compreender nossa história, reconhecer os sentimentos que fomos construindo e perceber como eles orientam nossas ações pode abrir possibilidades de transformar nossas relações. Quando atendemos um casal, esse trabalho exige compreender também a história que os dois construíram juntos, suas dificuldades e os caminhos que ainda podem encontrar, inclusive quando isso significa reconhecer que a relação chegou ao fim.
Talvez, seja mais fácil falar de amor do que examinar nossas próprias maneiras de amar.
De que adianta encontrar alguém para dividir a vida se, para manter essa relação, precisamos abrir mão de quem somos?