Gratidão precisa ter limite.
Algo que observo com certa recorrência nas pessoas que chegam em psicoterapia é a dificuldade de se reconhecer como digno do próprio sofrimento.
Principalmente quando esse sofrimento vem de uma relação de trabalho que é vista pela pessoa como privilegiada.
“Meu salário é bom.”
“Gosto das pessoas com quem trabalho.”
“Minha empresa nem é tão ruim.”
“Tenho estabilidade.”
“Tem gente passando por coisa muito pior.”
Você não precisa odiar seu trabalho para estar sofrendo com ele.
O sofrimento comunica algo, e a falta de acolhimento ao sentimento pode gerar mais angustia, frustração e desgaste.
Às vezes, a gente faz uma lista de tudo que está bem no trabalho como se estivesse tentando provar para si mesmo que não tem o direito de estar insatisfeito.
E talvez seja justamente por isso que algumas formas de sofrimento sejam tão difíceis de reconhecer.
Quando não existe um chefe antagonista, uma empresa tóxica ou uma vontade desesperada de pedir demissão, fica difícil explicar por que alguma coisa parece não estar bem.
Você continua trabalhando.
Entrega o que precisa entregar.
Participa das reuniões.
Recebe seu salário.
Talvez até seja reconhecido pelo que faz.
Mas percebe que alguma coisa mudou.
O domingo começa a pesar um pouco mais.
O trabalho ocupa a cabeça mesmo depois do expediente.
Aquilo que antes mobilizava já não parece tão importante.
Você começa a se perguntar se quer continuar fazendo isso pelos próximos anos.
E logo depois vem a culpa.
“Mas eu tenho um bom emprego. Do que estou reclamando?”
Reconhecer as coisas boas da sua vida não exige que você ignore aquilo que não está bem.
Nem todo sofrimento precisa de um culpado.
Às vezes, o trabalho continua sendo objetivamente bom, mas a relação que você construiu com ele mudou.
Pode ser que seus valores tenham mudado ou talvez aquilo que você buscava há alguns anos já não seja suficiente hoje.
Antes de decidir se você deveria ficar, sair, mudar de carreira ou simplesmente tirar férias, talvez exista uma pergunta anterior:
O que essa insatisfação está dizendo sobre a vida que você tem construído?
Você não precisa esperar odiar o seu trabalho para começar a olhar para como ele te afeta.