O sofrimento materno na clínica
Olá comunidade. Tenho pensado muito sobre as modalidades de sofrimento que presencio na clínica com mães e seus filhos. Na psicanálise, não é nova a noção de que tudo que uma mãe não deve ser é perfeita. Ao menos, nos ideais que nossa cultura construiu, que são o de uma mãe hiper presente, hiper preventiva e protetora de qualquer mal, mas, sobretudo, sendo esse o mais danoso, a mãe cuja vida passa a orbitar a maternidade - e o marido.
Assim, na escuta, surgem vários fatores que contribuem para deixar e também para que a mulher se deixe nessa situação de não abrir brechas para o desejo próprio, o que as poderia fazer falhar em suas "atribuições". A oferta de uma hiperidentificação ao termo "boa mãe" parece ser o que as leva a não olhar para mais nada além do filho, não desenvolver outras atividades, não parar para ver um filme ou video no youtube, que seja, desenvolver uma parte de sua subjetividade descolada da vida familiar.
E isso, muitas vezes, funciona diferente dos maridos, que ainda conseguem manter amizades, ter vida social, ver futebol de noite.
O que está em jogo ai, contudo, é a saúde mental desse sistema familiar, pois muitas foram as crianças que atendi com uma dificuldade imensa de separação com a mãe, e vice versa! Crianças que nem imaginam que o olhar da mãe possa estar para algo além delas, que a mãe possa ter um hobbie, possa gostar de se maquiar, de estudar, de ler...apenas cozinhar, arrumar a casa. Isso atrapalha a subjetivação da própria criança, pois ela mesma acaba restringindo seu prematuro aparelho desejante à cuidadora ao invés de conseguir investir sua energia fora.
Enfim, gostaria de abrir esse campo de discussão dos fatores políticos, culturais e sociais que contribuem para que muitas mulheres deixem uma parte de si enquanto sujeitos ao tornarem-se também mães.