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Trauma e Psicoterapia: o que fazemos?
Venho compartilhar um tema extremamente presente na nossa sociedade, que ainda possui muita violência, e que faz parte dos temas que mais atendo e tenho experiência, atendendo pela perspectiva da TCC focada no Trauma, o tratamento com mais evidências cientificos atualmente para o tema.
Primeiramente, é importante dizer que o trauma não é só “algo ruim que aconteceu”. É a forma como uma experiência de ameaça, violência ou perda sobrecarregou a capacidade da pessoa de processá-la, e continua se manifestando no presente: muitas vezes aparecendo através de lembranças intrusivas, hipervigilância, evitação, sentimentos negativos como culpa e vergonha, em pensamentos como “não estou seguro” ou “sou insuficiente”. Por isso, na psicoterapia, o foco não é apenas falar sobre o que houve, mas ajudar a pessoa a mudar a relação com o que houve, e com a sua memória e o seu presente.
Trauma é a exposição a uma situação extremamente estressante (de curta ou longa duração), que representa ameaça real ou percebida à vida ou à integridade física e emocional, seja da própria pessoa ou de alguém próximo. Ela pode ser vivida como uma ameaça à vida, mesmo sem deixar marcas físicas aparentes. Alguns exemplos podem ser: Acidentes de trânsito; Assaltos; Estupros e violências sexuais; Incêndios/explosões; Ataques terroristas; Experiências de violência física e/ou sexual na infância; Catástrofes naturais (ex: terremotos, enchentes); Sequestros e Tortura.
Para pensar em tratamento, antes de qualquer trabalho com a memória traumática, precisamos construir regulação na pessoa: com vínculo terapêutico confiável, psicoeducação sobre as reações ao trauma e habilidades de regulação emocional, como as da DBT (tolerância ao mal-estar, atenção plena, regulação) que atualmente tem ótimas evidências para trauma e desregulação emocional. Sem isso, revisitar o trauma pode desregular em vez de curar. O ritmo é sempre respeitando a autonomia, as escolhas e o limite do paciente.
No geral, o psicólogo que trabalha trauma atua como um guia empático e capacitador, auxiliando as vítimas a processar suas experiências, desenvolver estratégias de enfrentamento e retomar o senso de segurança e controle sobre suas vidas. Também é fundamental lembrar que sempre é necessário uma conceitualização cognitiva individual, visto que cada paciente, mesmo vitima de trauma, tem um histórico de vida, repertório de déficits e habilidades, rede de apoio, emoções, crenças e pensamentos únicos, e devem ser tratados como tal.
A TCC focada no trauma é considerada um tratamento de primeira linha para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), diagnóstico muito presente em vitimas de trauma, apresentando evidências consistentes de eficácia na redução dos sintomas e na melhora da qualidade de vida.
Entende-se na TCC que o sofrimento não é mantido apenas pela lembrança da violência, mas também pelas interpretações que a pessoa passa a fazer sobre si, sobre os outros e sobre o mundo.
Além disso, o psicólogo auxilia na reconstrução da narrativa do trauma, permitindo que os pacientes integrem a experiência de forma adaptativa. Ele também fortalece as habilidades de enfrentamento e promove a reintegração social, ajudando as vítimas a retomarem suas atividades cotidianas.
Algumas das habilidades mais construidas para quem foi vitima de trauma geralmente são: Psicoeducação sobre trauma e reações traumáticas; Reestruturação Cognitiva que consiste em identificar e modificar pensamentos disfuncionais relacionados ao trauma, por exemplo nos pensamentos sobre a responsabilidade pelo o que aconteceu; Exposição Gradual é sobre confrontar memórias e situações evitadas de forma segura e controlada, buscando diminuir a evitação; Desenvolvimento de Estratégias que são feitas para aprender habilidades para regular emoções e melhorar o funcionamento diário e Reconstrução do senso de segurança, autonomia e projeto de vida.
A violência pode fazer parte da história, mas não precisa definir a história.
O trauma pode transformar a forma como a pessoa vê a si mesma, os outros e o mundo. Com acolhimento, proteção e tratamento baseado em evidências, é possível promover recuperação e reconstrução. O papel do psicólogo é oferecer um espaço seguro para que essa reconstrução aconteça.
Para os pacientes, pergunto pra vocês, caso sintam-se confortáveis pra dizer: o que você gostaria que as pessoas entendessem sobre o processo de se recuperar de um trauma? E para meus outros colegas da Psicologia, como você decide a hora de testar passar da estabilização para o processamento da memória traumática? E além disso, na anamnese de vocês perguntar sobre histórico de trauma está sempre presente ou nem sempre?
Abraços e estou à disposição pra conversarmos sobre!
Psicóloga Verônica Diego (CRP 06/219542)
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