Violência Sexual e Psicoterapia
Violência sexual acontece quando alguém obriga, força, manipula ou pressiona outra pessoa a participar de qualquer situação de caráter sexual sem o seu consentimento claro e livre. Isso inclui qualquer ato ou contato sexual — com ou sem penetração — em que a pessoa não quis, não pôde, ou não teve liberdade real para recusar.
A Constituição Federal do Brasil estabelece (artigo 1º, inciso III) que um dos fundamentos do Estado brasileiro é a dignidade da pessoa humana. Isso significa que toda pessoa tem o direito de ser tratada com respeito, proteção e liberdade, e que nenhuma forma de violência — física, psicológica, sexual, moral, patrimonial ou simbólica, é compatível com esse princípio. Essa agressão pode ocorrer por meio de força, ameaça, manipulação, chantagem, intimidação ou abuso de poder. Toda forma de violência é uma tentativa de controlar, ferir ou silenciar alguém. A violência, em qualquer forma, não é um problema individual da vitima, ela representa uma grave violação de direitos.
Por que falarmos sobre Violência Sexual? Somando estupro, importunação sexual e assédio sexual, foram registrados mais de 133 mil crimes sexuais em 2024 no Brasil. Mesmo com os dados apontando altas taxas de subnotificação, os crimes sexuais aparecem em destaque e em crescente na nossa sociedade.
Trauma é a exposição a uma situação extremamente estressante (de curta ou longa duração), que representa ameaça real ou percebida à vida ou à integridade física e emocional, seja da própria pessoa ou de alguém próximo. A violência sexual é uma das formas mais graves de trauma, pois atinge várias dimensões ao mesmo tempo: o corpo, a confiança, a segurança e a dignidade.
Ela pode ser vivida como uma ameaça à vida, mesmo sem deixar marcas físicas aparentes.
A abordagem mais bem sustentada pela evidência é a TCC focada no trauma, e as diretrizes internacionais a recomendam como primeira linha para TEPT em adultos, inclusive sobreviventes de violência sexual.
A Estrutura Geral do tratamento envolve:
- Avaliação (TEPT, comorbidades como depressão, uso de substâncias e risco de suicidio) e psicoeducação sobre as reações ao trauma.
- Estabilização e habilidades de regulação emocional, quando necessário.
- Processamento do trauma: exposição, reestruturação ou ambos
- Consolidação dos ganhos e prevenção de recaida.
É importante sinalizar que a conceitualização de caso é a base para qualquer intervenção, o que não deixa de ser diferente para vitimas de violência sexual.
A violência sexual é um dos eventos traumáticos mais associados ao desenvolvimento de TEPT. Por isso, a escolha do tratamento deve se apoiar nas melhores evidências disponiveis. As diretrizes internacionais convergem em recomendar a TCC focada no trauma como primeira linha. Ela trabalha diretamente as memórias do evento e os pensamentos e emoções associados a ele. Essas diretrizes também priorizam a psicoterapia em relação à farmacoterapia, ou seja, a terapia mostra resultados mais precisos do que somente tomar medicação psiquiátrica.
A violência pode fazer parte da história, mas não precisa definir a história. O trauma pode transformar a forma como a pessoa vê a si mesma, os outros e o mundo. Com acolhimento, proteção e tratamento baseado em evidências, é possível promover recuperação e reconstrução. O papel do psicólogo é oferecer um espaço seguro para que essa reconstrução aconteça.
Para finalizar, levanto um questionamento aos psicólogos: Você se sente preparada(o) para acolher e tratar sobreviventes de violência sexual com abordagens baseadas em evidências, como a TCC focada no trauma?
E aos sobreviventes da violência sexual, que solidarizo, se o que você sente hoje não for fraqueza, e sim uma reação esperada a algo que ninguém deveria viver? Saiba que existe tratamento com evidência cientifica, e que você não precisa passar por isso sozinha(o).
Se você busca tratamento e foi vitima de violência sexual no seu histórico de vida e vive prejuizos por conta do trauma, estou à disposição.