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A Terapia Online

Autor Psi. Anderson
22 de abril de 2026

Quando pensamos em terapia, a imagem que frequentemente nos vem à mente é a do divã clássico, a poltrona do analista e o silêncio de um consultório fechado. Com a popularização dos atendimentos online, uma dúvida muito comum costuma surgir: a terapia através de uma tela tem o mesmo efeito?

Para a psicanálise, a resposta passa por entender o que realmente sustenta o processo terapêutico. O verdadeiro "consultório" não é feito de quatro paredes, mas sim da relação construída entre quem fala e quem escuta.


O Enquadre Além do Espaço Físico

Na visão psicanalítica, o que cura e transforma é a palavra. O inconsciente não obedece a fronteiras geográficas ou à presença física. Quando você se senta diante do seu computador ou celular, em um ambiente em que se sinta seguro e com privacidade, o espaço analítico está instaurado.

A tela atua apenas como um meio de transporte para a sua voz. O que importa são os atos falhos, as pausas, os sonhos relatados e as emoções que atravessam a conexão. A transferência – esse vínculo de confiança fundamental entre o paciente e o profissional – acontece através da linguagem, e a escuta atenta do psicólogo permanece ali, do outro lado, tão presente quanto estaria presencialmente.

A terapia online oferece, inclusive, um convite interessante: o de criar o seu próprio "divã" dentro do seu espaço íntimo, trazendo a reflexão terapêutica para dentro da sua própria casa.


2 Sugestões de Leitura para Expandir o Olhar

Para quem está em processo terapêutico ou pensando em começar, a literatura é uma excelente ponte para entender melhor os labirintos da própria mente. Aqui estão duas recomendações com um viés psicanalítico, mas escritas de forma muito acessível:

1. A Psicopatologia da Vida Cotidiana (Sigmund Freud) Não se assuste com o título. Este é um dos livros mais fascinantes e acessíveis de Freud. Nele, o pai da psicanálise explica como o nosso inconsciente se manifesta nas pequenas coisas do dia a dia: esquecer o nome de um amigo, trocar uma palavra por outra sem querer (o famoso ato falho), perder objetos. É uma leitura excelente para o paciente começar a perceber que aquilo que parece um simples "erro" pode ter muito a dizer sobre seus desejos mais profundos.

2. Cartas a um Jovem Terapeuta (Contardo Calligaris) Embora o título sugira que o livro seja para psicólogos, ele é uma verdadeira joia para os pacientes. Escrito por um dos psicanalistas mais brilhantes (e de orientação lacaniana) que atuou no Brasil, o livro desmistifica o que acontece na clínica. Calligaris fala sobre o sofrimento humano, a vocação de escutar o outro e as ilusões que criamos sobre a cura e a felicidade. É uma leitura acolhedora que humaniza a figura do terapeuta e ajuda o paciente a entender a beleza e a profundidade do processo de análise.

Encontrar um espaço para falar e ser ouvido é o movimento mais importante que você pode fazer por si mesmo. Seja no consultório tradicional ou através da tela, o que transforma é a coragem de colocar a própria história em palavras.

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