Ansiedade: resposta ao medo respondida pela dúvida
Sinto que o mundo tem medo de mim
Por isso o temo por igual.
Este texto, até o momento, é um ensaio sobre o caminho da vida. Da minha e da deles. Talvez da sua.
Introdução
Há tempos, quando pequenos, chegamos a pensar em ascender. Ou melhor, saltar ao infinito ou ao fundo do mar. Acreditávamos — ingenuamente? talvez não — que poderíamos voar pelas profundezas e que lá estariam apenas peixinhos dourados, estrelados, mundos inteiros ainda não contaminados pelo medo. Hoje, entretanto, tememos o profundo. Há algo naquele poço. Há algo no fundo do mar. E no imenso? No intangível? O que existe no algo que há no nada?
Talvez essas perguntas nunca tenham sido infantis. Talvez sempre tenham sido humanas.
Não é possível fugir do medo, tampouco viver sem ele. Seria ele intrínseco à natureza humana? À minha natureza? Que natureza é essa que teme? Sentir medo serve para alguma coisa? Ele me atrai e me repele ao mesmo tempo. Não consigo escapar dele, mas também não consigo abandoná-lo. Talvez isso signifique que exista alguma função nesse desconforto.
Essa ambivalência aproxima-se daquilo que António Damásio (1994) descreve ao compreender o medo como uma emoção adaptativa. Para o neurocientista, as emoções não existem para atrapalhar a razão, mas para torná-la possível. O medo não apenas paralisa; ele prepara o organismo para responder às ameaças, permitindo que sobrevivamos. Quando digo que ele me atrai e repele, talvez eu apenas descreva essa dupla natureza: aquilo que protege também limita.
Ao mesmo tempo, alguns estudos apontam que, diante do sufocamento produzido pela lógica capitalista e por tecnologias que comprimem nossa atenção, nossa existência passa a ser organizada pelo próximo acontecimento. O próximo reels. O próximo short. O próximo TikTok. O próximo emprego. O próximo relacionamento. O que importa parece sempre estar logo adiante, nunca aqui.
Nossa resposta a esse movimento costuma ser igualmente acelerada: ansiosa, imediata, desesperada. Vivemos correndo em direção ao próximo instante sem perceber que essa corrida talvez seja uma tentativa de escapar daquilo que nos espera quando finalmente paramos.
E quando paramos, encontramos o medo.
Søren Kierkegaard escreveu que "a ansiedade é a vertigem da liberdade" (1844/2010). Sua reflexão influenciou profundamente a psicologia existencial ao compreender que a ansiedade não representa apenas um sintoma, mas uma consequência inevitável da liberdade humana. Se somos livres para escolher, também somos responsáveis por suportar a ausência de garantias. Talvez seja exatamente isso que exista no fundo do poço: não um monstro, mas a possibilidade de perceber que não há respostas prontas.
O desconhecido sempre habitou as profundezas.
Carl Gustav Jung (1961/2016) sugeria que aquilo que evitamos frequentemente guarda aspectos importantes de nossa própria personalidade. Ao afirmar que "há algo naquele poço", talvez eu esteja menos falando de um perigo externo do que de regiões internas ainda desconhecidas. O fundo do mar transforma-se, assim, numa metáfora do inconsciente. O que assusta também pode conter criatividade, potência e transformação.
Talvez seja por isso que ainda me lembro dos peixinhos dourados, das bolinhas coloridas, da janela de onde acreditava ser possível voar. Donald Winnicott desenvolveu a ideia de que a infância nunca desaparece completamente; ela permanece organizando a maneira como experimentamos o mundo adulto. A máxima de William Wordsworth — posteriormente retomada por Winnicott — de que "a criança é o pai do homem" revela justamente essa continuidade. Não deixamos de ser crianças. Apenas aprendemos formas mais sofisticadas de esconder aquilo que um dia sentimos.
Os símbolos permanecem vivos mesmo quando esquecemos seus nomes.
Talvez por isso as perguntas insistam tanto.
O que existe no nada?
O que existe depois do fundo?
O que resta quando tudo aquilo em que acreditávamos deixa de existir?
Perguntar também gasta energia. Chega de perguntas, por enquanto.
Mas talvez amadurecer não signifique encontrar respostas. Winnicott (1958) propõe que uma das maiores conquistas do desenvolvimento emocional é a capacidade de permanecer só, diante da incerteza, sem precisar preenchê-la imediatamente. Permanecer com uma pergunta pode ser mais transformador do que encerrá-la rapidamente com uma resposta qualquer.
No fundo, talvez seja isso que chamamos de coragem.
Houve um tempo em que prezei algo que se perdeu. Fui sonhado. E, no mesmo lugar em que fui imaginado, também fui enterrado.
O que importa se já morri?
Renasci?
Jung afirmava que "aquilo que negamos nos submete; aquilo que aceitamos nos transforma." A morte, nesse contexto, não precisa ser compreendida biologicamente. Há identidades que precisam morrer para que outras possam nascer. Crescer talvez seja exatamente essa sucessão de pequenos lutos invisíveis, em que deixamos versões antigas de nós mesmos para trás.
E talvez o mundo também participe desse processo.
"Sinto que o mundo tem medo de mim. Por isso o temo por igual."
Essa frase deixa de falar apenas de um indivíduo e passa a revelar uma relação. Carl Rogers compreendia que nossas relações são profundamente organizadas pelas expectativas de aceitação e rejeição. Quando acreditamos que o outro nos percebe como ameaça, torna-se mais fácil interpretar o mundo inteiro como ameaçador. O medo deixa de pertencer apenas a um sujeito; ele circula entre as pessoas, alimentando-se mutuamente.
Talvez este ensaio nunca tenha sido exatamente sobre o medo. Talvez seja sobre aprender a permanecer em diálogo com aquilo que jamais será completamente explicado.
Os peixinhos dourados, o fundo do mar, o espaço, a Terra, a avó, as bolinhas coloridas e o silêncio entre uma pergunta e outra não são apenas lembranças. São símbolos de diferentes momentos do desenvolvimento psíquico. Crescer não significa abandoná-los, mas escutá-los de outra maneira.
Porque, no fim, o medo talvez não seja o oposto da vida.
Talvez seja uma de suas linguagens.
E, se viver é atravessar continuamente aquilo que ainda não conhecemos, talvez o medo não seja um inimigo a ser vencido, mas um companheiro inevitável da existência.
Questionamento final
Talvez o texto não seja exatamente sobre o medo. Talvez seja sobre permanecer em diálogo com aquilo que nunca poderá ser completamente explicado. Os peixinhos dourados, o fundo do mar, o espaço, a Terra, a avó e as bolinhas coloridas funcionam como símbolos de diferentes momentos do desenvolvimento psíquico. A psicologia sugere que crescer não significa abandonar esses símbolos, mas aprender a escutá-los de outra maneira. Assim, o medo deixa de ser apenas um inimigo e passa a ser um companheiro inevitável da existência, lembrando que viver é atravessar continuamente aquilo que ainda não conhecemos.
Havia, há muito tempo e por pouco tempo, prezado por algo que se perdeu. Fui sonhado, sim, e no mesmo lugar fui aterrado. O que importa se já morri? Renasci?
Perguntar também gasta caloria. Chega de perguntas por enquanto.
Implique-me.
Referências bibliográficas
DAMÁSIO, A. R. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
JUNG, C. G. Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.
KIERKEGAARD, S. O Conceito de Angústia. Petrópolis: Vozes, 2010.
ROGERS, C. R. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WINNICOTT, D. W. Da Pediatria à Psicanálise: Obras Escolhidas. Rio de Janeiro: Imago, 2000.
Álbum Lux - Rosalia, Complete Works, recém lançado (no momento) e trilha sonora durante a escrita do texto.
Imortais e fatais 1, baco.
Peixinhos dourados pintados pelo meu avô no meu quarto de infância, em minha primeira casa, do qual havia a janela da qual saltei acreditando que iria voar.
Bolinhas coloridas, daquelas de piscina de bolinhas, furtadas de algum lugar por alguma mãe para ter algo pra brincar com o filho, talvez por isso também roubei algumas do serviço e sempre que vejo uma penso em pegar pra brincar com meu 🤍.
Fundo do mar e imensidão do espaço, escafandro e astronauta.
Terra.
Vozinha, que fazia barulho de grilo quando eu não tinha resposta