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Quando a autoestima vira uma exigência

Autor Psi. Patricia Aparecida Simões Ramos
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17 de agosto de 2026

Vivemos em um tempo em que falar sobre autoestima se tornou quase uma obrigação. É preciso se amar, se valorizar, reconhecer o próprio potencial, estabelecer limites e nunca aceitar menos do que se merece.

A princípio, parece um discurso necessário. Afinal, quem não gostaria de ter uma relação mais cuidadosa consigo mesmo?

Mas talvez seja importante fazer uma pergunta: o que acontece quando a necessidade de se amar também se transforma em uma exigência?

Porque, em alguns momentos, aquilo que deveria ser uma possibilidade de cuidado pode se transformar em mais uma cobrança. A pessoa não apenas sofre por não gostar de si; passa também a sofrer porque acredita que deveria gostar.

“Eu preciso me amar.”

“Eu preciso ter autoestima.”

“Eu não deveria me importar tanto com a opinião dos outros.”

“Eu deveria me achar bonita.”

“Eu deveria saber o meu valor.”

E, diante dessas exigências, aquilo que já era sofrimento pode ganhar uma nova camada de culpa.

A psicanálise nos permite olhar para essa questão de outra maneira.


Nem sempre é possível simplesmente escolher se amar

A ideia de que basta decidir se amar parece simples, mas o sujeito não se constitui a partir de uma escolha consciente e racional.

Nossa relação com nós mesmos é atravessada pela história, pelas primeiras relações, pelas identificações, pelas experiências de reconhecimento e rejeição e, principalmente, pelo modo como fomos constituídos a partir do olhar do Outro.

Antes mesmo de conseguirmos perguntar quem somos, já ocupamos determinados lugares para alguém.

Fomos desejados, esperados, comparados, elogiados, criticados, cobrados. Fomos sendo apresentados a determinadas expectativas sobre quem deveríamos ser.

E essas experiências participam da construção da nossa relação com o próprio eu.

Por isso, dizer a alguém que ela precisa simplesmente “se amar mais” pode ser insuficiente. Às vezes, existe uma história inteira sustentando aquilo que aparece, no presente, como dificuldade de gostar de si.

Não se trata apenas de falta de autoestima.

Existe um sujeito e existe uma história por trás dela.


O olhar do Outro

Na psicanálise, o sujeito não se constitui isoladamente.

Desde muito cedo, somos atravessados pelo olhar e pelo desejo daqueles que nos cercam. É a partir desse Outro que começamos, também, a construir alguma ideia sobre quem somos.

Isso ajuda a compreender por que a imagem que temos de nós mesmos pode depender tanto da forma como somos vistos.

Às vezes, uma mulher pode saber racionalmente que é competente, bonita ou capaz, mas ainda assim sentir que precisa constantemente de uma confirmação externa.

Um elogio tranquiliza, mas por pouco tempo.

Uma mensagem recebida traz alívio.

Uma demonstração de afeto confirma que ela é importante.

Mas logo surge novamente a dúvida.

“Será que ele realmente gosta de mim?”

“Será que sou bonita o suficiente?”

“Será que estou fazendo tudo certo?”

“Será que ainda sou desejada?”

Não é simplesmente uma questão de vaidade ou insegurança.

Existe algo da relação do sujeito com o olhar do Outro.

E talvez por isso nenhuma quantidade de elogios seja capaz de produzir uma segurança permanente.

Porque a falta não desaparece simplesmente porque alguém nos disse que somos suficientes.


Quando “se amar” se transforma em cobrança

Existe ainda uma contradição interessante no discurso contemporâneo sobre autoestima.

Ao mesmo tempo em que somos incentivados a abandonar a necessidade de aprovação, somos apresentados diariamente a modelos de beleza, sucesso, produtividade, relacionamentos e felicidade.

Precisamos ser independentes, mas também desejáveis.

Precisamos nos aceitar, mas também melhorar constantemente.

Precisamos amar nosso corpo, mas somos bombardeados por inúmeras formas de transformá-lo.

Precisamos ser confiantes, mas não podemos parecer arrogantes.

Precisamos colocar limites, mas também precisamos ser boas mães, boas filhas, boas companheiras, boas profissionais.

E então surge uma nova exigência:

é preciso até mesmo estar bem consigo mesma.

Quando isso não acontece, o sujeito pode sentir que está fracassando mais uma vez.

“Além de não gostar de mim, ainda não consigo aprender a me amar.”

Nesse ponto, a autoestima deixa de funcionar como possibilidade de cuidado e passa a funcionar como uma cobrança.

E aqui podemos pensar na dimensão do supereu.


O supereu também pode aparecer no discurso do “ame-se”

Na experiência clínica, muitas vezes encontramos sujeitos que vivem submetidos a uma série de “deverias”.

Deveria estar mais feliz.

Deveria me valorizar.

Deveria ter superado.

Deveria me amar.

Deveria não aceitar isso.

Deveria ser mais segura.

A questão é que o supereu não aparece apenas como uma voz que proíbe.

Ele também pode aparecer como uma exigência.

É preciso ser feliz.

É preciso aproveitar.

É preciso ser bem-sucedida.

É preciso amar a si mesma.

E quanto mais o sujeito tenta corresponder a essa exigência, mais pode experimentar a sensação de que nunca está fazendo o suficiente.

A própria tentativa de alcançar uma imagem ideal de si pode se tornar fonte de sofrimento.


Talvez a questão não seja aprender a se amar

A psicanálise não oferece uma fórmula para produzir autoestima.

E talvez essa seja justamente uma das contribuições possíveis da psicanálise para essa discussão.

Em vez de perguntar apenas:

“Como faço para gostar mais de mim?”

podemos perguntar:

“Por que preciso tanto me sentir amada, reconhecida ou suficiente?”

Ou ainda:

“De onde vem essa exigência de ser aquilo que acredito que deveria ser?”

Essas perguntas deslocam o sujeito da busca por uma resposta pronta e permitem que ele se aproxime da própria história.

Porque talvez não seja necessário chegar a um ponto em que finalmente consigamos olhar para nós mesmos e dizer: “Eu me amo completamente”.

O sujeito é atravessado pela falta. A relação consigo mesmo também é marcada por conflitos, ambivalências e contradições.

Podemos gostar de algumas partes de nós e rejeitar outras.

Podemos nos sentir confiantes em determinado momento e inseguros em outro.

Podemos desejar reconhecimento e, ao mesmo tempo, desejar não depender dele.

Isso não significa necessariamente fracasso.

Significa que somos sujeitos divididos.


Entre o ideal e o possível

Talvez exista uma diferença importante entre construir uma relação mais possível consigo mesma e transformar o amor-próprio em um ideal a ser alcançado.

Quando a autoestima se torna um ideal rígido, a pessoa pode passar a se comparar não apenas com outras pessoas, mas também com uma versão idealizada de si mesma.

A mulher que deveria ser mais segura.

Mais bonita.

Mais independente.

Mais madura.

Mais resolvida.

Mais feliz.

E, diante dessa versão ideal, o eu real parece sempre insuficiente.

A psicanálise pode oferecer outro caminho: não o caminho de eliminar a falta, mas o de poder reconhecê-la sem transformar essa falta em uma condenação.

Talvez cuidar de si não signifique chegar ao ponto de nunca mais duvidar do próprio valor.

Talvez signifique poder existir mesmo quando a certeza não está presente.

Poder desejar sem precisar estar completamente segura.

Poder reconhecer suas fragilidades sem transformá-las imediatamente em defeitos.

Poder se perguntar o que realmente deseja, para além daquilo que aprendeu que deveria desejar.

No fim, talvez a questão não seja simplesmente aprender a se amar.

Talvez seja poder construir uma relação menos cruel consigo mesma.

Uma relação em que não seja necessário estar o tempo inteiro provando que se é suficiente.

Porque, quando até o amor-próprio vira uma obrigação, talvez seja necessário perguntar:

para quem, afinal, estamos tentando provar que somos suficientes?

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